Do medo ao acolhimento: espíritas diante das pandemias
Na Palestina do século I, a lepra — hoje conhecida como hanseníase — não era apenas uma enfermidade física. Era também uma sentença social. Os doentes eram afastados do convívio familiar, impedidos de participar da vida comunitária e obrigados a viver à margem, em regiões isoladas, muitas vezes confinados em leprosários. A lei e a tradição religiosa impunham distância: ninguém deveria tocá-los.
Foi nesse cenário que Jesus rompeu barreiras. Ele se aproximou, falou, tocou e curou leprosos, não apenas restituindo-lhes a saúde, mas devolvendo-lhes dignidade e pertencimento. No episódio dos dez leprosos, o Mestre demonstrou que a verdadeira cura começa pelo amor que acolhe, antes mesmo de qualquer restauração física. Ele nos deixou a lição de que, diante da dor, a compaixão deve ser maior que o medo.
Mais de 18 séculos depois, durante a vida de Allan Kardec, a França enfrentou várias ondas de cólera, com surtos graves entre 1832 e 1866. Na Revista Espírita de novembro de 1865, Kardec abordou diretamente o tema no artigo “O Espiritismo e a cólera”, rebatendo preconceitos e ressaltando que o medo e o abatimento moral fragilizavam o organismo, enquanto a fé esclarecida fortalecia.
Defendeu a necessidade de prudência e higiene — como limpeza, sobriedade e eliminação de focos insalubres — deixando claro que o espírita não deve agir como fatalista, mas seguir as medidas sanitárias para evitar o “verdadeiro suicídio” de se expor desnecessariamente. Ao mesmo tempo, incentivou que se acolhesse o próximo com coragem e amor, sem desprezar os cuidados, tal como Jesus fez com os leprosos de seu tempo.
Nos anos 1980, o mundo se viu diante de uma nova pandemia: a AIDS. Inicialmente, o desconhecimento científico e o preconceito social produziram estigmas profundos. Parte disso ficou registrada nas páginas de O Trevo, revelando que a evolução de ideias é um processo construído com o tempo.
Em dezembro de 1987, um artigo (edição 166) apresentava a doença com forte viés moralista, associando-a à “desordem sexual” e ao “câncer gay” — expressão hoje reconhecida como discriminatória e cientificamente incorreta. O foco era o temor e a interpretação punitiva, sem espaço para compreender ou acolher as pessoas atingidas.
Menos de dez anos depois, em dezembro de 1995, O Trevo publicava um texto (edição 258) de Tais Lorenzetti Fortes que representava um avanço expressivo. O tom era outro: reconhecer a AIDS como realidade humana que exige respeito, empatia e combate ao preconceito. O texto afirmava que “o que quer todo doente, com qualquer doença, é carinho, respeito e atenção” — uma guinada do moralismo para o acolhimento.
A mais recente crise global, a COVID-19, trouxe novamente esse desafio. Em muitos lugares, o medo do contágio levou ao fechamento temporário das atividades presenciais. Em outros, houve resistência e criatividade para manter o vínculo: atendimentos online, os passes, o acolhimento fraterno com protocolos sanitários e ações de amparo material, mesmo em contextos de risco.
Assim, mais uma vez, repetiu-se a história: uns optaram por cautela máxima; outros, pela reinvenção da presença. Em todos os casos, o dilema era o mesmo — como proteger sem deixar de acolher.
O que as pandemias revelam sobre nós
Do tempo de Jesus à era digital, passando pela cólera, pela AIDS e pela COVID-19, cada epidemia expôs nossas escolhas: reagir com medo e isolamento, ou com acolhimento e compaixão. Enxergar o outro como ameaça, ou como irmão em sofrimento.
O movimento espírita, inspirado pelo Evangelho, é chamado a seguir o exemplo de Cristo diante da lepra: aproximar-se, não se afastar. Isso não significa agir com imprudência, mas unir coragem e sensibilidade, prudência e calor humano.
O medo é compreensível. O amor é essencial. E, olhando para trás, vemos que os gestos mais transformadores não nasceram de portas fechadas, mas de braços abertos.
Que, como Jesus, possamos estender a mão e reafirmar, mesmo nos tempos mais sombrios:
“Não temas, estou contigo.”
Thiago Rodrigues é do Grupo Espírita Reencontro de Mauá/SP e da Equipe de O Trevo
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