Lições da ‘Revista Espírita’ para passes de cura
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No livro “Passes: Aprendendo com os Espíritos”, do Projeto Manoel Philomeno de Miranda, somos lembrados de que “mesmo reconhecendo que, em última análise, a cura pertence a Deus, podemos afirmar que ela depende de três fatores: o poder fluídico de quem doa; o merecimento de quem recebe (conforme o karma) e a eficácia do meio. Atribuir pesos a cada um desses fatores pertence à matemática divina.”
A capacidade de doação é inerente a cada ser encarnado ou não, de acordo com sua potência amorosa, merecimento e predisposição. Depende também das condições mentais e sentimentais do assistido. Além disso, a eficácia do meio influencia, devendo ser baseada numa correta preparação dos trabalhadores nos dois planos com elevação e oração para os trabalhos.
O passista encarnado, como um elo de uma corrente, é certamente a parte mais frágil. Por isso, um preparo mental conjuntamente a um equilíbrio de sentimentos deve estar minimamente ajustado em serenidade e concentração, para que possa suportar a necessidade do grupo e dos trabalhos de doação, bem como possibilitar a correta passagem dos fluidos para o assistido.
Neste aspecto, temos que os médiuns trabalhadores das casas espíritas devem constantemente se aprimorar nos estudos, se aprofundando no entendimento dos trabalhos mediúnicos.
Orientações da ‘Revista Espírita’
Uma grande referência para os grupos mediúnicos são as “Revistas Espíritas" publicadas por Kardec entre 1858 e 1869. Manter uma coleção para consulta em casa é sempre de grande valia. O livro “Passes: Aprendendo com os Espíritos” sugere a leitura de três artigos específicos destas revistas para aprofundamento do nosso entendimento.
O primeiro trata-se da “Revista Espírita de Janeiro de 1864 – Mensagem do Espírito Mesmer”, que transcrevemos a seguir: “...A vontade muitas vezes foi mal compreendida. Em geral aquele que magnetiza não pensa senão em manifestar sua força fluídica, derramar o seu próprio fluido sobre o paciente submetido aos seus cuidados, sem se preocupar se há ou não uma Providência que se interesse pelo caso tanto ou mais que ele. Agindo só, não pode obter senão o que a sua força, sozinha, pode produzir, ao passo que os médiuns curadores começam por elevar sua alma a Deus e a reconhecer que, por si mesmos, nada podem. Fazem, por isto mesmo, um ato de humildade, de abnegação; então, confessando-se demasiado fracos, Deus, em sua solicitude, lhes envia poderosos socorros, que o primeiro não pode obter, já que se julga suficiente para a obra empreendida. (...) Esse socorro que envia são os Espíritos bons, que vêm penetrar o médium de seu fluido benfazejo, o qual é transmitido ao doente. Também é por isto que o magnetismo empregado pelos médiuns curadores é tão potente e produz essas curas classificadas de miraculosas, e que são devidas simplesmente à natureza do fluido derramado sobre o médium; enquanto o magnetizador ordinário se esgota, muitas vezes inutilmente, em dar passes, o médium curador infiltra um fluido regenerador pela simples imposição das mãos, graças ao concurso dos Espíritos bons. Mas esse concurso só é concedido à fé sincera e à pureza de intenção.”
Essa passagem reforça a importância da preparação do médium, mantendo serenidade e boas intenções compatíveis com os trabalhos a serem desenvolvidos, adquiridas não imediatamente antes dos trabalhos, mas durante toda a semana anterior e, se possível, durante a maior parte da própria vida.
Na segunda citação, encontramos na “Revista Espírita de Outubro de 1867 – Os Médicos-médiuns” a seguinte instrução:
“...Dissemos que a mediunidade curadora não matará a Medicina nem os médicos, mas não pode deixar de modificar profundamente a ciência médica. Sem dúvida, haverá sempre médiuns curadores, porque sempre os houve, e esta faculdade está na natureza; mas serão menos numerosos e menos procurados à medida que o número de médicos-médiuns aumentar, quando a ciência e a mediunidade se prestarem mútuo apoio. Ter-se-á mais confiança nos médicos quando forem médiuns, e mais confiança nos médiuns quando forem médicos.”
Para os trabalhadores dos grupos de P3A, pode-se perceber cada vez mais a complementação destes trabalhos de passes e a medicina convencional. A correta intenção, o esforçado desprendimento, a vontade realizadora somados às diversas mediunidades encontradas nos participantes encarnados permitem cada vez mais entender as informações disponibilizadas pelos espíritos superiores e auxiliar pela vontade forte e fé inabalável, sob orientação destes espíritos, aos diversos assistidos que procuram as casas espíritas hoje em dia.
E, por último, a citação da “Revista Espírita de Novembro de 1866 – Considerações Sobre a Propagação da Mediunidade Curadora”:
“O poder curativo está todo inteiro no fluido depurado a que servem de condutores. A teoria deste fenômeno foi suficientemente explicada para provar que entra na ordem das leis naturais, e que nada tem de miraculoso. É o produto de uma aptidão especial, tão independente da vontade quanto todas as outras faculdades mediúnicas; não é um talento que se possa adquirir; não se faz um médium curador como se faz um médico… Outro ponto a considerar, é que sendo esta faculdade fundada em leis naturais, tem limites traçados por essas mesmas leis. Compreende-se que a ação fluídica possa dar sensibilidade a um órgão existente, fazer dissolver e desaparecer um obstáculo ao movimento e à percepção, cicatrizar uma ferida, porque, então, o fluido se torna um verdadeiro agente terapêutico; mas é evidente que não pode remediar a ausência ou a destruição de um órgão, o que seria verdadeiro milagre. Assim, a vista poderá ser restituída a um cego por amaurose, oftalmia, belida ou catarata, mas não aos que tiverem os olhos furados. Há, pois, doenças incuráveis por natureza, e seria ilusão crer que a mediunidade curadora fosse livrar a Humanidade de todas as suas enfermidades.”
Fica evidente que a mediunidade curadora não vem suplantar a Medicina e os médicos, e vem, simplesmente, provar a estes últimos que há coisas que eles não sabem e os convidar a estudá-las.
Neste sentido, os grupos mediúnicos podem auxiliar e muito, trabalhando como grupo em fraterno conjunto por anos, com afinco e fé, onde as habilidades mediúnicas e acuidade de interpretação das orientações dos espíritos superiores ficarão cada vez mais e mais simples e diretas, auxiliando aos assistidos com base no amor divino.
Pode-se citar como exemplo de desenvolvimento o estudo e análise das auras, suas cores e bloqueios, com base em bibliografia disponível e na prática interpretativa. Outro ponto é o melhor entendimento das alterações perispirituais, seja pelo médium vidente ou pelos demais médiuns sensitivos, que refletem as condições psicofísicas de cada indivíduo.
Um exemplo bastante discutido no meio espírita é o consumo de carne, principalmente a vermelha. Sem adentrar muito a fundo nesta questão, que vale outro artigo inteiro, podemos trazer experiências de trabalhos no P3A em pessoas que consumiram carne com intensidade e estiveram em tratamento no P3A.
O que se pode perceber, principalmente para o médium vidente, é um acúmulo refletido como uma nuvem escura no perispírito nas pernas na altura das canelas e ao redor da próstata. Isto provavelmente se explica, pois, a matéria quintessenciada da carne consumida também é adicionada no indivíduo na sua parte perispiritual. Como é densa, sofre a ação da gravidade e desce no corpo espiritual, parando em certas regiões, como a próstata (provavelmente devido a ser um local entre grandes centros de força), e nas canelas/pernas, partes mais baixas do corpo.
Assim, o consumo excessivo em pessoas com predisposição ou em tratamento por certas doenças pode, por exemplo, ocasionar ataques de gota na região das pernas ou prejudicar um tratamento de câncer de próstata. E aqui entra um exemplo prático do que os espíritos nos falaram, da conexão da mediunidade com a Medicina: existem vários artigos científicos sobre o consumo da carne e a relação com a gota, ex.: https://doi.org/10.1590/S0482-50042008000300005 ; e a relação com a próstata, ex.: https://doi.org/10.3389/fnut.2022.801722 .
Este é um universo que começa a se abrir e se popularizar. Torna-se de suma importância o estudo aprofundado e a troca de experiências para que as arestas dos entendimentos das orientações do mais alto sejam pouco a pouco corrigidas e melhoradas e a finalidade última de ajudar o semelhante se torne cada vez mais extensa e eficaz.
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Este artigo é continuação de texto publicado na edição 535 de O Trevo, que detalha o trabalho dos grupos mediúnicos nos passes de cura, conhecidos na Aliança como P3A. Leia aqui: https://www.alianca.org.br/site/trevo/535/art5.html
Mauro Iwanow é da equipe do P3A no CEEA (Regional Oeste) e de O Trevo