Parábola da prisão (II)
Escola de Aprendizes do Evangelho
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A Escola de Aprendizes do Evangelho (EAE) é uma escola iniciática, uma escola prática, também conhecida como escola de ser, onde o adepto procura a sua evolução moral através de sua própria experiência.
Em contraposição, temos as outras escolas (as que habitualmente conhecemos), onde o aluno vai para aprender com a experiência de outras pessoas.
São conhecidas como escolas de saber, ou escolas teóricas ou filosóficas.
A Escola de Aprendizes do Evangelho se destina a pessoas com algum grau de insatisfação com a materialidade e/ou que buscam a espiritualização.
As pessoas satisfeitas com a materialidade não se interessam por escolas iniciáticas.
A parábola realça o fato de que sozinho é praticamente impossível escapar da materialidade, sendo necessária a formação de um grupo. Um grupo é o início de tudo. Isso, no âmbito da EAE, a formação do grupo ocorre durante o Curso Básico de Espiritismo.
Assim como na parábola, o dirigente do programa da EAE (normalmente na Aula 1) estabelece as regras do programa, orienta como criar um ambiente místico (de preferência com música suave e leitura edificante antes do início da aula) e sugere ao adepto a aquisição de novos hábitos (tal como o prisioneiro que se dá conta de que precisa tornar-se invisível).
O primeiro hábito a ser adquirido é a prece ao deitar e ao se levantar todos os dias.
Fazer prece ao se deitar ou se levantar é fácil; o difícil é fazê-la todos os dias.
O principal objetivo dessa atividade é construir um canal de comunicação com a Espiritualidade Superior. Como consequência dessa atividade o aluno forma ao seu redor um escudo fluídico que irá amenizar as influências maléficas do ambiente em que vive.
Quando o dirigente fizer essa proposta e alguns alunos se manifestarem que já têm esse hábito, recomenda-se que o dirigente passe uma tarefa alternativa, para adquirir um outro hábito, como esse, por exemplo:
— Todas as vezes que o aluno sair ou entrar pela porta principal de seu lar, pensar (ou murmurar) a seguinte frase: “Sou aluno da Escola de Aprendizes do Evangelho”.
O objetivo desse exercício é o aluno conscientizar-se de que todas as tarefas pedidas pela EAE serão difíceis, muito difíceis, mas factíveis, possíveis de serem realizadas desde que se construa um alerta, um despertador, um lembrete, uma campainha.
Depois de dois meses (Aula 8) verifica-se se estão realizando a tarefa. Para aqueles que não estejam conseguindo, é porque não construíram o despertador. Insistir para que façam isso.
Na Aula 10 inclui-se mais uma tarefa: o Evangelho no Lar. Atividade semanal com dia e horário fixos. Também necessita de despertadores para ser realizada sem interrupção.
Decorrido mais um mês (na Aula 13), o dirigente oferece a primeira ferramenta: o Caderno de Temas.
— Para que serve o Caderno de Temas?
— Serve para que o adepto comece a aprender a observar seus comportamentos (comportamentos defensivos e comportamentos construtivos).
Muitos dos assuntos do Caderno de Temas são sugestões de temas comportamentais. O primeiro é sobre educação, o segundo sobre mau humor, o terceiro sobre irritação e assim seguem os demais temas sobre comportamentos.
A sugestão para as anotações é que, diante do tema sugerido, o aluno procure recordar-se de um momento em sua vida em que vivenciou a situação do tema, registrando:
1º) A data que está fazendo as anotações.
2º) Anotar: Tema nº tal: redigir o enunciado do tema sugerido.
3º) Primeiro parágrafo: registrar o fato recordado de maneira sucinta (poucas linhas é o suficiente). Um fato real, concreto, vivenciado. Não apenas uma reflexão ou sua opinião sobre o enunciado.
Segundo parágrafo (registro sucinto também): procurar lembrar qual foi o seu comportamento durante o fato recordado, o que ele fez no momento, sem julgamento e sem ditar norma de conduta, apenas como foi o comportamento. Nada mais, não é relevante escrever se reagiu bem ou mal, certo ou errado, ou como deveria ter atuado. O objetivo é aprender a se observar.
Na Aula 16, a EAE introduz mais uma atividade: Vibração das 22 horas, para ser realizada todos os dias.
Nessa atividade fica bem evidente a necessidade do despertador. E ela, diferentemente da 1ª atividade, sobre a prece ao deitar e ao se levantar (que é realizada quando todos os compromissos com a materialidade já foram cumpridos; e, se não foram, não é naquele momento que serão), deve ser realizada quando o aluno estiver envolvido nas questões materiais, para recordar e reforçar que seu principal objetivo é o espiritual. E esse é um aspecto importante, durante o período de atividades normais, lembrar-se de que sua meta é espiritualizar-se. É também uma atividade para treinar a doar o que tem de si: seus sentimentos e fluidos salutares.
Aula 23, decorridos 6 meses na escola iniciática, o adepto deve ter notado a diferença dessa escola prática das outras escolas teóricas ou filosóficas que ele conhecia. Então é oferecida a ele a oportunidade de assumir o primeiro compromisso iniciático, ingressando no primeiro grau da Fraternidade dos Discípulos de Jesus (FDJ): grau de Aprendiz; cujo compromisso é “esforçar-se para se autoconhecer”.
Nessa aula também ocorre a implantação das Vibrações Coletivas (nos grupos onde já existe a atividade, é feito o convite para incorporar-se ao trabalho). Um dos objetivos dessa atividade é o adepto incomodar-se, ou seja, sair da comodidade habitual e vencer obstáculos para realizar uma nova atividade (além de todos os benefícios que a tarefa traz).
Aula 24, implantação de mais uma ferramenta: Caderneta Pessoal.
— Para que serve a Caderneta Pessoal?
— A Caderneta Pessoal serve para o adepto observar suas emoções (seus sentimentos).
Sobre emoções e sentimentos vale mencionar que segundo o neurocientista português António Damásio, autor do livro O Erro de Descartes, a emoção é um programa de ações, um conjunto das respostas motoras que o cérebro faz aparecer no corpo como resposta a algum evento. “É uma espécie de concerto de ações. Não tem nada a ver com o que se passa na mente”. De acordo com os estudos de Damásio, existe uma cadeia complexa de acontecimentos no organismo que começa na emoção e termina no sentimento. Uma parte do processo se torna pública (emoção) e outra sempre se mantém privada (sentimento). “As emoções ocorrem no teatro do corpo. Os sentimentos ocorrem no teatro da mente”.
O que é sentimento? Conhecemos o nome de alguns sentimentos, mas temos dificuldade de expressar em palavras um sentimento.
Então se sugere que o adepto utilize paulatinamente essa ferramenta. Durante um período (pode ser até ao redor da aula 68 a 73, ou seja, no quarto recolhimento para verificação, pelo dirigente, da Caderneta Pessoal) o aluno fará suas anotações (no mínimo de um registro por semana) muito semelhante às anotações do Caderno de Temas, isto é, data, fato e comportamento. Posteriormente, outros itens virão.
Para uso dessa ferramenta temos mais uma observação: que fatos devem ser registrados na Caderneta Pessoal?
— Sempre que expressamos um comportamento que foi impulsionado por um estímulo no campo do sentimento, ele se expressa intensamente na forma de uma emoção com reflexo em nosso corpo físico, dando um sinal: o coração bate mais forte; as pernas tremem; ficamos vermelhos, verdes, amarelos, brancos (enfim todas as cores do arco-íris); sentimos vontade de ir ao banheiro (às vezes não dá tempo!). Ou seja, alterações como essas em nosso físico indicam que algo importante ocorreu no campo emocional (sentimental) e deve, portanto, ser registrado na Caderneta Pessoal.
Aula 32, implantação das Caravanas de Evangelização e Auxílio.
Para utilizar essa ferramenta, o aluno foi preparado desde a aula 1, quando intensificou suas orações (possibilitando assim abrir um canal de comunicação com a espiritualidade superior). A seguir, a prática do Evangelho no Lar lhe ensinou a ler um texto evangélico e interpretá-lo de uma maneira simples para outras pessoas (os demais participantes do Evangelho no Lar). A leitura de seus temas (do Caderno de Temas) para os demais participantes do grupo, o treinou a falar sem inibições para outras pessoas. A Vibração das 22 horas o possibilitou a ajudar seus semelhantes através dessa prática cristã.
Enfim, ele está pronto para utilizar essa ferramenta que, além de todos os seus benefícios, serve também para o adepto se contrariar. Ou seja, realizar uma atividade que, antes de iniciar o programa de autoconhecimento, muito provavelmente ele reprovava e agora percebe seus benefícios.
Note que, nessa altura do Programa, o adepto já conta com uma ferramenta para observar seus comportamentos no passado (Caderno de Temas), outra para observar comportamentos no presente (Caderneta Pessoal) e passa a contar com uma ferramenta para observar comportamentos no futuro (Caravanas), pois, quando ele bater na porta de desconhecidos, ele estará provocando um estímulo para, no futuro, poder observar qual será o seu comportamento, muitas vezes gerando oportunidades de anotações na Caderneta Pessoal.
É importante notar que ao longo do primeiro ano do programa o adepto paulatinamente foi adquirindo disciplina e obediência ao “plano de fuga”, aprendendo a fazer as atividades em equipe: Evangelho no Lar (com participantes encarnados e desencarnados), Vibração das 22 horas (embora realize isoladamente, é uma atividade em grupo, pois inúmeros Aprendizes a fazem no mesmo horário), Vibrações Coletivas, etc.
Assim, após o exame do 1º Ano, na Aula 48 é oferecido ao adepto assumir o segundo compromisso iniciático: “trabalhar com pessoas e para pessoas”, ou seja, o compromisso de servir, ingressando no grau de Servidor da FDJ. Tendo como norma “o servidor que não serve, não serve”.
Temos que lembrar que trabalhar em equipe é muito difícil; na verdade chega a ser desagradável. Desagradável no sentido de que, quando estamos em equipe, os demais componentes do grupo querem realizar suas atividades da maneira como eles querem e não da maneira que eu gosto que realizem (por isso é desagradável). E esse é o benefício iniciático, pois, quando eu observo (na verdade, aponto) um comportamento que não me agrada, esse comportamento é um atributo que eu possuo, que me é familiar, sendo um auxílio importante no meu processo de autoconhecimento.
Nesse momento o adepto recebe, também, o convite para começar o Curso de Médiuns, que, além de auxiliar em suas tarefas de servir, lhe possibilitará ter um contato mais estreito com a Espiritualidade Superior (o lado de fora da prisão).
Aula 56, implantação do Exercício de Vida Plena.
As escolas de ser ou escolas iniciáticas privilegiam a própria vivência do adepto para a sua evolução espiritual. Porém, nas condições em que é realizado o Exercício de Vida Plena, onde o participante procura ouvir e compreender o participante que está se expressando, pode ser que ele consiga aprender com a experiência do outro sem necessariamente ter que passar por essa experiência.
Contribuindo, dessa forma, para apressar a sua transformação moral.
A partir desse ponto do programa, o aluno já recebeu do plano espiritual superior (ajuda de fora da materialidade) todo o programa de fuga: os novos hábitos e as ferramentas. Cabe agora ao aluno pô-los em prática, se esforçar sob a orientação do dirigente.
CADERNETA PESSOAL
Após dezenas de anotações (decorrido cerca de um ano), o aluno pode verificar que, para estímulos externos de mesma natureza, ele sempre reagiu da mesma maneira, somente variando a intensidade. Se o agente do estímulo for seu chefe, sua mãe ou seu subordinado, a reação foi sempre a mesma, apenas variando a intensidade do comportamento.
Ou seja, o instinto animal esteve presente em suas reações. Isto equivale a dizer que ainda não exerceu plenamente o seu livre-arbítrio.
Após essa constatação, sugere-se (ao redor da aula “vícios e defeitos”, no 4º recolhimento da Caderneta Pessoal) incluir mais um tópico nas anotações: “fazer uma proposta de mudança”, se o comportamento observado foi defensivo, ou “fazer uma proposta de reforço”, se o comportamento observado for construtivo.
Uma proposta concreta, passível de ser realizada. Deve-se evitar propostas genéricas e de difícil realização (tais como: ser paciente, ser tolerante, ser amoroso, etc.).
A partir de então o aluno pode observar que, quando o estímulo externo ocorrer novamente, por um átimo, ele se lembrará da proposta registrada. E esse é o ponto relevante, pois nesse momento poderá escolher reagir como antigamente, ou como proposto ou, ainda, de uma maneira diferente.
Ou seja, começará a usar sua liberdade de escolha (isto equivale a dizer que a partir de então ingressa na Humanidade, aprendendo a fazer uso do atributo do livre-arbítrio).
Note que a realização ou não da proposta deixa de ser relevante. O importante é ter um gatilho (a proposta registrada) para poder decidir o que fazer e não reagir mecanicamente (sem pensar) como fazia anteriormente.
Decorrido mais um tempo (no 7º recolhimento da Caderneta), o aluno pode, se quiser, incluir mais um tópico em suas anotações: a emoção presente em suas reações, lembrando que emoção é um sentimento que se exterioriza de forma intensa em decorrência de um estímulo (íntimo ou exterior).
Nesse processo o adepto desenvolveu seus conhecimentos espirituais, autoconhecimento, cuidados com o seu corpo e trabalho em bem do próximo.
O terceiro compromisso iniciático: “Vivenciar os ensinamentos de Jesus”.
É Discípulo de Jesus o adepto que consegue viver no mundo (prisão) e dele se desprende (ultrapassa as muralhas), devotando-se ao Bem, vivendo o Evangelho em tudo o que pode. Com certeza atravessará a Porta Estreita e entrará no Caminho da Cruz e posteriormente no Caminho do Reino.
O Discípulo pela Fraternidade dos Discípulos de Jesus - Setor Aliança Espírita Evangélica tem também o compromisso de zelar, manter, difundir e pensar a Escola de Aprendizes do Evangelho.
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Este roteiro foi desenvolvido e aplicado na implantação das turmas de Escola de Aprendizes do Evangelho em Cuba, no período de jan/2009 a dez/2019.
Sandra e Luiz Pizarro
C. E. Vinha de Luz,
Regional SP-Centro