The Sims e a educação espiritual das primeiras gerações digitais

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Lançado no ano 2000, o jogo The Sims completou 25 anos e segue como um símbolo afetivo de toda uma geração. Antes mesmo de mundos abertos, metaversos e realidade virtual, o jogo nos deixava — discretamente — experimentar algo muito parecido com questões profundas da filosofia espírita: liberdade, escolhas, responsabilidade e até vida após a morte.

Para quem não conhece The Sims, uma breve explicação. O The Sims é um jogo de simulação de vida. Você cria personagens virtuais, constrói casas para eles, gerencia suas necessidades, suas carreiras e escolhas de vida. E acompanha as consequências dessas decisões.

No universo dos “Sims”, o jogador ocupa um lugar curioso: ele não é o personagem; é quem o inspira. Observa, orienta, propõe caminhos. Em termos espirituais, é uma posição muito próxima do que chamamos de “amigo espiritual”, “mentor” ou mesmo da própria dinâmica educativa da vida: alguém que sugere, mas não obriga; que guia, mas não controla completamente.

Afinal, no jogo cada personagem possui livre-arbítrio. Eles comem, dormem, brigam, amam e até tomam decisões inesperadas quando deixados no modo automático. Quantas vezes não deixamos o jogo rolando para ver “no que dava”? E ali aprendíamos intuitivamente que cada vida carrega seu roteiro próprio — uma metáfora simples do que o Espiritismo descreve como inclinações anteriores, tendências, hábitos, conquistas e desafios.

Mas havia também o outro lado: quando o jogador decidia intervir demais. Quem nunca virou, sem perceber, um “obsessor de telhado”, destruindo escadas enquanto o personagem tentava sair da piscina? Ou tirando portas para ver o caos acontecer? Em linguagem espírita, era uma forma lúdica de entender o impacto de influências externas — nem sempre positivas — na trajetória de um ser.

Outra marca forte do jogo é a morte. Os personagens partem, deixam memórias… e voltam como fantasmas, que interagem, aparecem, assustam e revelam emoções. Para muitos jovens, foi o primeiro contato simbólico com a ideia de sobrevivência da alma.

O jogo nunca tratou a morte como fim, mas como continuidade, ecoando a essência do que Kardec afirmou em suas viagens: “a vida futura lança nova luz sobre a vida presente e modifica nossa compreensão das coisas”.

Essa perspectiva é parecida com o que o Espiritismo ensina: a existência não se limita ao instante. Somos seres em processo, aprendendo com cada etapa — e, como no jogo, sempre podemos recomeçar, reconstruir e evoluir.

Hoje, quando já existem The Sims 4 e as expectativas em torno do The Sims 5, muitos jovens nunca jogaram as primeiras versões, mas o encanto permanece. No fundo, The Sims não era só um jogo de casas e profissões. Era — e ainda é — um laboratório simbólico da vida, mostrando que a liberdade tem consequências, que o cuidado transforma, e que existe algo em nós que atravessa as janelas do tempo.

A geração que cresceu com o jogo, agora adulta, talvez perceba: cada partida era uma pequena lição de espiritualidade. E, como no Espiritismo, sempre haverá novas fases, novos aprendizados e novos “salvamentos” possíveis.

Thiago Rodrigues jogou muito The Sims e é voluntário de O Trevo

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