Sombras da alma: o fascínio por psicopatas e o olhar espírita
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Nos últimos anos, minisséries e documentários que retratam assassinos em série e crimes hediondos transformaram-se em sucessos mundiais. Produções como “Dahmer: Um Canibal Americano” e “Monstro: Irmãos Menéndez”, da Netflix, ou a brasileira “Tremembé”, do Prime Video, dedicam temporadas inteiras a crimes chocantes. O interesse do público levanta uma questão profunda: por que nos fascinamos por psicopatas? À luz do Espiritismo, a resposta passa pela compreensão da jornada evolutiva do espírito e das causas espirituais dos distúrbios mentais.
As produções são premiadas e aclamadas pelas atuações e por escancarar o abismo a que a condição humana pode chegar, mas também são criticadas por glamourizar o assassino e romantizar o crime.
Para o Espiritismo, o mal não é uma entidade independente, mas a ausência de conhecimento e de moralidade. Allan Kardec identificou uma categoria de espíritos impuros ou inferiores que ainda se deixam dominar pelo egoísmo e pela crueldade. Encarnados, esses espíritos, muitas vezes, entregam-se a vícios e cometem atrocidades por ignorância e desequilíbrio. Em vez de qualificá-los como “maus”, podemos vê-los como almas em processo de evolução, imaturas ou doentes, que necessitam de aprendizado e reparação para progredir.
Casos como o do assassino em série retratado em “Dahmer” ilustram essa visão. Em sua declaração final, o criminoso afirmou que não se defenderia à Justiça, reconheceu que era “doente ou mau” e pediu desculpas às famílias das vítimas. Mesmo uma alma profundamente perturbada pode ter lampejos de consciência e iniciar um caminho de arrependimento — sinal de que, embora ainda não evoluída, não está perdida.
Psicopatia, memórias e traumas de vidas passadas
A psicopatia, na visão espírita, não surge apenas de predisposições biológicas; ela pode resultar de tendências de vidas anteriores, de obsessões espirituais e do mau uso das faculdades intelectuais e/ou mediúnicas. A médium Yvonne do Amaral Pereira relatou em “Recordações da Mediunidade” que, desde a infância, recordava sua última existência, experimentando crises nervosas e saudades inexplicáveis. A história mostra que lembranças reencarnatórias podem influenciar o comportamento, gerando ansiedade ou desconexão da realidade.
O escritor Léon Denis acrescenta que a adaptação dos sentidos espirituais ao corpo físico é gradual. Até cerca de sete anos, o espírito da criança ainda vive parcialmente no plano espiritual, podendo ter percepções de vidas passadas. Pesquisas contemporâneas confirmam que traumas e abusos na infância são frequentes em histórias de serial killers, embora especialistas em criminologia enfatizem que esses fatores não são determinantes – inúmeros sobreviventes de traumas nunca cometem crimes.
O Espiritismo distingue a neurose, em que o indivíduo enfrenta conflitos internos sem romper com a realidade, da psicose, em que a pessoa substitui o mundo exterior por fantasias. Sigmund Freud descreveu a psicose como uma ruptura entre o ego e o mundo, enquanto a neurose é um conflito entre o ego e o inconsciente. Kardec acrescenta que certos estados mentais podem ser expiações de espíritos que abusaram das faculdades intelectuais no passado; por isso, são pessoas que precisam de tratamento, independentemente da pena atribuída.
O caso Lemaire: reconhecimento e reparação
No século XIX, Kardec evocou o espírito de Lemaire, criminoso executado na guilhotina. Na comunicação mediúnica, Lemaire confessou que sua maior dor após a morte era moral e que sentia profunda vergonha e remorso. Ele admitiu que a tendência ao crime estava em sua natureza de espírito inferior, mas lamentou não ter recebido educação moral adequada.
Encontrou suas vítimas felizes, compreendeu que apenas novas encarnações permitiriam reparar seus crimes e percebeu que a pena de morte não resolveu seu problema, apenas o transferiu de plano. O relato sugere que espíritos em suas primeiras fases evolutivas podem aprender com a dor, reconhecendo que o sofrimento alheio recai sobre si mesmos pela lei de causa e efeito.
A popularidade de produções sobre crimes reais reflete nossa curiosidade sobre os extremos da condição humana - ou talvez despertem a nostalgia da nossa realidade de um passado distante? A doutrina espírita oferece uma leitura compassiva: assassinos e psicopatas são espíritos imaturos ou ignorantes, que necessitam de educação, tratamento e expiações para evoluir. Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, somos convidados a ter caridade com os criminosos, orando por eles e pedindo pelo seu arrependimento, o primeiro passo para a regeneração.
Ao assistir a essas histórias, longe de glorificar seus atos, deveríamos refletir sobre nossas próprias sombras, buscando o autoconhecimento e o exercício da caridade.
Thiago Rodrigues é voluntário de O Trevo