Os corpos espirituais e o autoconhecimento

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"O perispírito, mais tarde, será objeto de mais amplos estudos das escolas espiritistas cristãs."

(André Luiz/F. C. Xavier, Libertação, pág. 85, nota 1 do autor espiritual da 14ª edição)

A ideia de que o ser humano é composto por mais do que apenas carne e osso não é nova. Diversas correntes filosóficas e espiritualistas, desde as tradições orientais até os estudos do Espiritismo e da Teosofia, abordam uma constituição múltipla do ser. A análise desses “corpos sutis” amplia a compreensão sobre a jornada espiritual do indivíduo e reforça a importância do trabalho sobre si mesmo.

A concepção trina do ser humano — espírito, perispírito e corpo físico — foi adotada por Allan Kardec em "O Livro dos Espíritos", alinhando-se à tradição de Paulo de Tarso e às antigas culturas do Oriente. Essa visão, entretanto, se expande em correntes como a Teosofia, que propõe uma constituição setenária do homem: um quaternário inferior e uma tríade superior.

Representação dos corpos espirituais e sua relação com espírito e matéria

O quaternário inferior inclui os corpos mais densos: físico, duplo etéreo, astral e mental. Esses corpos são formados por estruturas físicas e energéticas, desde as células até os elétrons. Já a tríade superior — causal, búdico e divino — seria formada por partículas ainda mais sutis, como quarks e bósons, indicando um grau elevado de sutilização.

Segundo Edgard Armond, em sua obra "Passes e Radiações", o duplo etéreo pode ser considerado parte do corpo físico, pois não acompanha o Espírito após o desencarne. Essa distinção reforça a transitoriedade do corpo material e a permanência do perispírito como elo entre o espírito e a matéria.

Diagrama da constituição setenária do homem com tríade superior e quaternário inferior

Outro ponto curioso é a origem dos elementos que compõem cada parte: o quaternário inferior estaria ligado à Terra, enquanto a tríade superior se conectaria a elementos da galáxia, reforçando a ideia de que somos, literalmente, parte do cosmos.

Correntes do espiritualismo colaboram com essa visão ampliada do ser humano, distinguindo entre essência — aquilo com que nascemos — e personalidade — formada pelas influências sociais e familiares. Para elas, a personalidade se consolida por volta dos sete anos de idade.

André Luiz, em "Missionários da Luz", cap. 13, afirma que a reencarnação só se completa por volta dos sete anos de idade.

Compreender os corpos perispirituais e suas funções oferece não apenas um mapa para a jornada do espírito, mas também um convite ao trabalho sobre si mesmo. Em um mundo cada vez mais materialista, retomar essas visões pode ser um passo importante para reencontrar o sentido mais profundo da existência.

A metáfora da carruagem é frequentemente utilizada para ilustrar essa constituição: o corpo é a carruagem, a mente é o cocheiro, as emoções são os cavalos, e o espírito é o passageiro. O autoconhecimento seria, então, o processo de integrar e harmonizar esses elementos rumo à evolução espiritual.

Alegoria da Carruagem

"…compreende a criatura humana como um ternário, semelhante ao carro, ao cavalo e ao condutor, os três juntos em serviço…"

E a vida continua – F. C. Xavier / André Luiz – cap. 2 – FEB

Ilustração da alegoria da carruagem com cavalo, cocheiro e passageiro

Metáforas antigas são reinterpretadas em tradições esotéricas e espirituais como ferramentas para o autoconhecimento e o equilíbrio interior.

A jornada interior do ser humano já foi simbolizada por carruagens, cavalos, cocheiros e passageiros desde os Upanishads e Platão até os dias atuais. Essas alegorias servem como lentes poderosas para compreender os instintos, emoções, intelecto e a essência interior, oferecendo caminhos para o autodomínio.

1. Origens milenares

• Nos Upanishads, especialmente na Katha Upanishad, o corpo é comparado a uma carruagem, guiada pelo intelecto e movimentada pelas emoções e sentidos, enquanto o “Eu” (Atman) permanece como passageiro. A mente é o cocheiro e os sentidos, os cavalos. A disciplina desses elementos leva à libertação; sua falta, ao caos e à reencarnação.

• Em Platão (Fedro), a alma é uma biga conduzida por dois cavalos — um dócil, outro indisciplinado — e guiada pela razão. O cocheiro deve equilibrar as forças conflituosas rumo à verdade.

2. Releituras esotéricas no Ocidente

• Papus (Dr. Gérard Encausse), no final do século XIX, reutilizou essa alegoria para explicar os três corpos energéticos: físico (carruagem), astral (cavalos) e mental (cocheiro), integrando simbolismos esotéricos e ocultistas.

3. Escolas da atualidade

• Interpreta-se a carruagem como o corpo físico, os sentimentos como os cavalos, a mente como o cocheiro, e o “Eu interior” como o passageiro. A vida comum, segundo elas, reflete um sistema desconectado: o passageiro não dá ordens, o cocheiro não comanda os cavalos, e tudo segue descontrolado.

• No método dessas escolas, o equilíbrio entre corpo, emoções e intelecto é essencial. Segundo esse ensinamento, o “amo” (corpo causal ou vontade) deveria comandar a mente (cocheiro), que por sua vez direciona as emoções (cavalos) e mantém a carruagem em bom funcionamento.

4. As conexões internas

• A carruagem, ou corpo físico, está ligada aos cavalos por arreios e varais, que simbolizam o duplo etéreo — canal por onde circulam energias vitais que alimentam os sistemas orgânicos, como o nervoso, o digestório e o circulatório.

• O cocheiro, que representa a mente racional, guia os cavalos (emoções) por meio das rédeas e do chicote — símbolos do pensamento e da disciplina.

• Já o amo (ou passageiro), centro da vontade e da consciência, comunica-se com o cocheiro através da voz interior. No entanto, essa “linguagem interior” frequentemente é incompreendida pela mente racional, que ainda não foi treinada para ouvi-la.

Os quatro componentes operam em velocidades distintas: o amo age mais rapidamente, seguido pelas emoções (cavalos) e, por último, pela mente (cocheiro), que tende a reagir de forma mais lenta.

5. Ferramenta prática: a caderneta pessoal

Para restabelecer a harmonia entre essas partes, há o uso de ferramentas de autopercepção, como a “caderneta pessoal” — um registro no qual se observa a manifestação das emoções no cotidiano. O objetivo é treinar o cocheiro a identificar quando e como os cavalos estão assumindo o controle da carruagem, para que ele aprenda a guiá-los com firmeza e compreensão.

Essa prática leva ao desenvolvimento de uma técnica em que o intelecto reconhece a linguagem do coração (amo) e aprende a comandar as emoções em vez de ser arrastado por elas. Afinal, são sempre os sentimentos exteriorizados através das emoções que puxam o corpo físico — e é sobre esse movimento que o verdadeiro “trabalho sobre si” precisa atuar.

Conclusão

A metáfora da carruagem vai além de uma construção filosófica: ela oferece um mapa prático para a reforma íntima. Reconhecer a fragmentação interior e buscar a integração consciente entre corpo, mente, emoções e espírito é o primeiro passo para deixar de ser apenas um passageiro passivo da própria vida — e assumir, enfim, as rédeas do destino.

Luiz Pizarro
C. E. Vinha de Luz
Regional SP-Centro

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