Entre Vidas e Vivências: Memórias que constroem o espírito

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Representação simbólica da jornada do espírito através de diferentes existências

“Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a lei". Essa fala de Allan Kardec traduz a nossa crença na imortalidade da alma e na reencarnação. Ou seja, o retorno à carne por quantas vezes forem necessárias para obtermos as oportunidades para a nossa alma evoluir e aprender constantemente. Essa conhecida “Lei do Progresso” é a base central da doutrina espírita.

Embora a frase sintetize a ideia de que a existência não se limita a uma única vida, mas é um ciclo contínuo de renascimentos (reencarnações), muitos ainda duvidam dessa premissa, acreditando no ditado que diz “que só se vive uma vez”. Por isso, vivem gritando ao mundo que devemos aproveitar cada momento, usufruindo de todos os tipos de prazeres.

Mas, e as lembranças que, por vezes, emergem do mais profundo do nosso espírito por meio de insights, sonhos, curtas lembranças e outras experiências tão reais que chegam a nos assustar? Como explicar, então, a simpatia (antipatia) gratuita que temos por pessoas, lugares e os episódios do conhecido deja vu que por vezes sentimos?

A literatura em geral, e não só a espírita, está inundada de obras com relatos surpreendentes de pessoas que não só se lembram, mas comprovam suas vidas pregressas em outros países, com outros nomes e famílias.

Sou descendente de italianos, mas desde pequeno manifestei certezas para meus pais. Algumas delas eram que eu me casaria com uma “japonesa”, que seria jornalista e ainda correspondente no Japão. Para essas certezas, duas se concretizaram. Casei-me com uma descendente de japoneses e me formei em jornalismo onde atuo até hoje. Já, ser correspondente na terra do Sol Nascente, Deus talvez ainda me permita viver a experiência.

Mas essas “coincidências” não pararam por aí, pois sempre tive uma grande fascinação pela cultura japonesa. E uma experiência marcante que tive foi um insight durante um exercício mental em que me vi perfeitamente em uma ilha no Pacífico, vestido como um militar japonês observando aviões levantando voo para lutar uma guerra já perdida.

Até hoje esse insight me deixa muito pensativo se realmente era uma lembrança de uma vida passada ou simplesmente influência de minha fascinação por esse povo. Só sei que, se Deus permitiu esta experiência, foi para que eu pudesse entender muitas coisas desta minha existência.

“Vivência”, ou memórias que eventualmente emergem em minha mente, mostrando-me em situações diversas em outras vidas, quando analisadas cuidadosamente, podem explicar muitos dos interesses e questões que trago nesta existência. Certeza de que foram existências pelas quais passei? Não tenho como provar. Por isso, apenas aceito como se fossem uma parte importante e essencial do “ser” que sou neste corpo atualmente. Aceitando essa condição, continuo a repetir a pergunta de forma intermitente: “afinal de contas, quem eu sou realmente?”

Sou um simples reflexo de experiências diversas em vidas passadas? Sou o acúmulo de sentimentos (bons ou não), que vivenciei e me transformaram ao longo de não sei quantos séculos de vida do meu espírito imortal? Que resultado sou hoje?

Acho que hoje já não me importo tanto com essa análise, pois sei que só terei respostas quando, e se me for permitido, acessar mais profundamente as lembranças de minhas existências anteriores. Portanto, cheguei à conclusão de que a minha identidade não é estática, limitada e finalizada nesta vida.

É, sim, um contínuo de informações que agrego ao meu espírito, que analiso, processo, descarto ou uso em meu progresso. E que o "eu" que sou agora é apenas mais um “momento” de uma trajetória de vida que começou há milhares de anos, quando Deus me criou como um espírito simples e ignorante, e que deve prosseguir pela eternidade com aprendizados diversos.

Cada experiência contribuiu para moldar aquilo que sou hoje, e serei amanhã. A beleza dessa perspectiva está em reconhecer que cada momento faz parte de uma construção divina que, hoje, tem um nome e sobrenome específico. O que serei amanhã só depende do que Deus permitir e do que faço hoje.

Jorge Luiz Mussolin é do CEEA, da Regional Oeste - São Paulo/SP

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